quarta-feira, 27 de julho de 2016

Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...

Talvez um dia entenda o teu mistério...
Quando, inerte, na paz do cemitério
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Cyberbullyng

Hás de ver, e ouvir
O sorriso e o choro
De nossas crianças
A maldade gratuita das palavras
A perversidade dos gestos
E a retribuição, a canção
O espelho. Sentimento tenebroso
Que acompanha as mãos. E os olhos
De nossos filhos. Afinal,
Tudo é pornografia
Nesse abismo social
Em que nos encontramos

Violência cotidiana, abuso
Desvio de rota, de passos
Trajeto de retorno, contorno
Deselegância desenfreada
Sexualidade as avessas
Roubo, extorsão, manipulação
Chantagem. Contagem
Regressiva para o fim
Da chuva, raio de luz
Novo dia. Nova aurora
Em nossas mãos