quarta-feira, 27 de julho de 2016

Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...

Talvez um dia entenda o teu mistério...
Quando, inerte, na paz do cemitério
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Cyberbullyng

Hás de ver, e ouvir
O sorriso e o choro
De nossas crianças
A maldade gratuita das palavras
A perversidade dos gestos
E a retribuição, a canção
O espelho. Sentimento tenebroso
Que acompanha as mãos. E os olhos
De nossos filhos. Afinal,
Tudo é pornografia
Nesse abismo social
Em que nos encontramos

Violência cotidiana, abuso
Desvio de rota, de passos
Trajeto de retorno, contorno
Deselegância desenfreada
Sexualidade as avessas
Roubo, extorsão, manipulação
Chantagem. Contagem
Regressiva para o fim
Da chuva, raio de luz
Novo dia. Nova aurora
Em nossas mãos 

domingo, 26 de junho de 2016

O Marinheiro

TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.
PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho?
SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?.. Não me faleis mais... Princípio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia.. Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?.... Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... É humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.
TERCEIRA — Foi-me tão belo escutar-vos... Não digais que não... Bem sei que não valeu a pena... É por isso que o achei belo... Não foi por isso, mas deixai que eu o diga... De resto, a música da vossa voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez só por ser música, descontente...
SEGUNDA — Tudo deixa descontente, minha irmã... Os homens que pensam cansam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-no, porque mudam com tudo... De eterno e belo há apenas o sonho... Por que estamos nós falando ainda?...
PRIMEIRA — Não sei... (olhando para o caixão, em voz mais baixa) — Por que é que se morre?
SEGUNDA — Talvez por não se sonhar bastante...
PRIMEIRA — É possível... Não valeria então a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?...
SEGUNDA — Não, minha irmã, nada vale a pena...
TERCEIRA — Minhas irmãs, é já dia... Vede, a linha dos montes maravilha-se... Por que não choramos nós?... Aquela que finge estar ali era bela, e nova como nós, e sonhava também... Estou certa que o sonho dela era o mais belo de todos... Ela de que sonharia?...
PRIMEIRA — Falai mais baixo. Ela escuta-nos talvez, e já sabe para que servem os sonhos...

Fernando Pessoa

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Teth a Teth

Para Hilda Hilst

No jardim crianças brincam de esconde-esconde
Algarismos e elucidações, querida, você se perdeu a onde?
Será no alto daquela antiga montanha?
Será na beira daquela praia rasa?
Ou será onde o vento sopra a brasa
E acende o fogo que lhe consome?

Vida, qual o seu nome? Com que traje
Você me visita, nessa noite fria?
Pois fique sabendo que de onde eu venho
Calor não havia. Tudo era pura monocromia

No entanto, antes que o fim se aproxime
E a morte, como um impulso, em mim tardie
Quero beijar-te sem melancolia, aceitar
Esse casamento, aproveitar este momento

E ser feliz por mais um dia.

A Sétima Noite

Tarumã na beira do rio
Lua que desponta por detrás do matagal
Garrafão que a correnteza leva e
Depois se encarrega de trazer de volta
Estio, evaporação, sexta feira de janeiro
Andança que não tem fim

domingo, 19 de junho de 2016

Um Poema Criminal

Quando em quando, lá
Onde as rochas encontram as águas
Morre alguém. Aquela velha história
Do corpo não identificado
Da lista de desaparecidos
Dos cartazes, inúmeros rapazes
E moças, desvelorizados

Famílias inteiras destroçadas
Pelas mãos de nossos algozes
Lágrimas silenciosas no final do corredor
Escorrem e lavam as escadas do morro
De nóis mesmos

quarta-feira, 25 de maio de 2016

XIV

Se te ganhasse, meu Deus, minh'alma se esvaziaria?
Se a mim me aconteceu com os homens, por que não com Deus?
De início as lavas do desejo, e rouxinóis no peito.
E aos poucos lassidão, um desgosto de beijos, um esfriar-se

Um pedir que se fosse, fartada de carícias.
Se te ganhasse, que coisas ainda desejaria minh'alma
Se ficasses? Que luz seria em mim mais luminosa?
Que negrume mais negro?

Não haveria mais nem sedução, nem ânsias.
E partirias. Em vazia de ti porque tão cheia.
Tu, em abastanças do sentir humano, de novo dormirias.

Hilda Hilst

domingo, 24 de abril de 2016

Zéfiro

Observar a curvatura do vento
esse é o verdadeiro sonho celeste
perambular por entre as suas esquinas
sobrevoar campos, plantar ipês
amarelos em um céu azul
e me sentir cru