domingo, 26 de junho de 2016

O Marinheiro

TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.
PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho?
SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?.. Não me faleis mais... Princípio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia.. Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?.... Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... É humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.
TERCEIRA — Foi-me tão belo escutar-vos... Não digais que não... Bem sei que não valeu a pena... É por isso que o achei belo... Não foi por isso, mas deixai que eu o diga... De resto, a música da vossa voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez só por ser música, descontente...
SEGUNDA — Tudo deixa descontente, minha irmã... Os homens que pensam cansam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-no, porque mudam com tudo... De eterno e belo há apenas o sonho... Por que estamos nós falando ainda?...
PRIMEIRA — Não sei... (olhando para o caixão, em voz mais baixa) — Por que é que se morre?
SEGUNDA — Talvez por não se sonhar bastante...
PRIMEIRA — É possível... Não valeria então a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?...
SEGUNDA — Não, minha irmã, nada vale a pena...
TERCEIRA — Minhas irmãs, é já dia... Vede, a linha dos montes maravilha-se... Por que não choramos nós?... Aquela que finge estar ali era bela, e nova como nós, e sonhava também... Estou certa que o sonho dela era o mais belo de todos... Ela de que sonharia?...
PRIMEIRA — Falai mais baixo. Ela escuta-nos talvez, e já sabe para que servem os sonhos...

Fernando Pessoa

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Teth a Teth

Para Hilda Hilst

No jardim crianças brincam de esconde-esconde
Algarismos e elucidações, querida, você se perdeu a onde?
Será no alto daquela antiga montanha?
Será na beira daquela praia rasa?
Ou será onde o vento sopra a brasa
E acende o fogo que lhe consome?

Vida, qual o seu nome? Com que traje
Você me visita, nessa noite fria?
Pois fique sabendo que de onde eu venho
Calor não havia. Tudo era pura monocromia

No entanto, antes que o fim se aproxime
E a morte, como um impulso, em mim tardie
Quero beijar-te sem melancolia, aceitar
Esse casamento, aproveitar este momento

E ser feliz por mais um dia.

A Sétima Noite

Tarumã na beira do rio
Lua que desponta por detrás do matagal
Garrafão que a correnteza leva e
Depois se encarrega de trazer de volta
Estio, evaporação, sexta feira de janeiro
Andança que não tem fim

domingo, 19 de junho de 2016

Um Poema Criminal

Quando em quando, lá
Onde as rochas encontram as águas
Morre alguém. Aquela velha história
Do corpo não identificado
Da lista de desaparecidos
Dos cartazes, inúmeros rapazes
E moças, desvelorizados

Famílias inteiras destroçadas
Pelas mãos de nossos algozes
Lágrimas silenciosas no final do corredor
Escorrem e lavam as escadas do morro
De nóis mesmos